VIVENDO A CRISE ECONOMICA-01Vivendo a crise econômica: chorar ou vender lenços?

Assunto tão propalado e debatido desde há aproximadamente um ano, a crise econômico-sócio-política que vive o Brasil não deixa de balisar as vidas de toda a população de um país que tinha “como meta” o desenvolvimento. Lêdo engano. Os objetivos e metas eram outras, muito diferentes do que o verbo expressava sob todas as suas formas. Os objetivos e as metas  eram de um projeto de poder, metaforicamente utilizando-se de uma pele  de carneiro sobre o feroz e ao mesmo tempo sedutor lobo que tentou enganar Chapéuzinho Vermelho, leia-se o povo brasileiro, usando a pele do carneirinho como uma primeira estratégia e, logo após,  a roupa da vovozinha, definitivamente eficaz, vovozinha esta por ele gostosamente saboreada para que dita vestimenta pudesse lhe ser útil. Ah, os contos de fadas! Desde sempre trazendo em si os simbolismos, aludindo à vida como ela é, preparando as criancinhas para o futuro, o mundo adulto, o mundo como ele é.

Bem, como para o bom entendedor meia palavra basta, esta é apenas uma minúscula  introdução do que temos para hoje: elocubrar, já que inevitável se faz, sobre o que nós, pobres mortais brasileiros, podemos fazer para enfrentar tudo que tem acontecido em nossas vidas desde há exatamente um ano. E o que tem ocorrido não é para amadores, ao contrário, é para profissionais, e dos bons. Assim sendo, vamos à luta iniciando por uma boa ainda que breve reflexão.

As crises se caracterizam por uma situação atípica, invariavelmente não esperada e necessariamente não desejada. Trazem em si inseguranças, temores, sentimento de impotência, e afetam a auto-estima uma vez que o ser humano tende a confundir, principalmente em situações de ansiedade, o que é seu do que é do outro. A crise a que me refiro é um fenômeno externo, pois vem de fora, pertence a uma realidade objetiva, a uma construção social compartilhada por muitos mas, não necessariamente, determinada por todos os sujeitos nela envolvidos. Assim, uma sociedade, neste caso, é atingida diretamente pela crise embora uns, mesmo que em minoria, sejam os dela deflagradores e, outros, no caso a maioria, suas vítimas.

Sartre dizia, em sua posição existencialista, que nos fenômenos humanos somos “metade vítimas e metade cúmplices, como todo o mundo”. Reputo a esta afirmativa uma verdade,  uma afirmação difícil de negar, pois somos sujeitos da história e, portanto, responsáveis mesmo que minimamente pelo que nos acomete. Assim, por mais objetiva que seja e por mais vitimados que possamos parecer, somos também responsáveis pelas crises.

No presente caso, tratando-se de uma crise econômico-sócio-política, necessariamente estamos nos havendo, em cada minuto de nosso cotidiano, com as consequências desta situação, ao mesmo tempo em que se faz importante analisar as causas que a determinaram. Esta última é a parte mais difícil. Por que razões, podemos nos perguntar? Diria que por motivos desde os mais simples aos mais complexos. Não havendo aqui espaço e tempo para uma análise mais acurada, centrar-me-ei em uma razão apenas, que me parece fundamental: a nossa capacidade, como nação, como cultura e, no presente caso, a incapacidade de assumir a nossa parte nesta complexa situação.

Críticas já bastante explicitadas a parte, agora é o momento para, em busca de soluções que permitam a reversão do atual estado de coisas, focarmos na compreensão sobre como podemos agir, partindo da pergunta inevitável: vamos chorar ou vender lenços? Se chorar é preciso, esse comportamento necessário tem que ter um limite. No nosso caso, passado um ano exato da deflagração e reconhecimento da crise econômica citada, já nos encontramos no momento de parar de chorar e partirmos para a busca de soluções, simbolicamente para vendermos lenços. Isto quer dizer, em primeiro lugar, assumirmos a posição de autores  de nossa história, do momento, da situação. A cadeia produtiva está dada, como uma engrenagem bem azeitada, e o sistema econômico capitalista não permite outra forma de funcionamento, pelo menos até o presente. Se apenas formos criativos e ampliarmos nosso trabalho-negócio, trazendo inovação, poderemos ter, sim, uma chance de sobreviver. No entanto, mesmo inovando e oferecendo produtos ou serviços inéditos precisamos do poder aquisitivo do grupo para que eles possam ser consumidos.  A questão reside na premissa: garantir a cadeia produtiva mas sob a égide da inovação, da criatividade, tendo como eixo a preocupação com o coletivo, num sistema de trocas mútuas, com flexibilidade como princípio, de olho na realidade e sobre ela agindo.

Troca é o conceito, trabalho vivo como princípio e muita disposição. Assim, em coletivo, poderemos vencer os obstáculos e superar a crise. Mudança de comportamento, atitude e proatividade é a somatória que poderá nos sustentar na dificuldade. Todos podemos vender lenços, não somente para enxugarem lágrimas de inconformidade e medo, mas também para secar o suor de nossas testas, molhadas pelo esforço que se traduzirá em novas e produtivas ideias e ações que nos levarão à superação. Afora isto, exercitar e cumprir nosso papel social de comprometimento, indo à luta em busca de valores construtivos. Única garantia de sustentabilidade e bem estar, próprio e coletivo.

A quem leu esta reflexão agradeço e peço a seguinte compreensão: desta vez não se trata de um comentário sobre a gravíssima crise política por que passa nossa nação, sobre a qual tenho manifestado parecer e opinião pessoal, por meio das redes sociais. Aqui escrevo em nome do papel profissional, preocupada com crise na sua dimensão econômica, que tem afetado diretamente nossa vida pessoal e laboral. Crise de dimensão tão séria quanto a política, enfatizando que em ambas, politica e econômica, nosso engajamento e ação se fazem necessários na mesma dimensão.

Marilu Diez Lisboa é Pós-Doutora em Educação (2013), pelo Programa de Pós-graduação em Educação PPGE, do Centro de Ciências em Educação CED, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Pós-doutora, pelo Departamento de Educação, Ciências Sociais e Política Internacional DECSPI, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais FCHS/UNESP Campus Franca (2010). Doutora (2002) e Mestre (1995) pelo Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social, PUC-SP. Graduada em Psicologia (1974) pela PUC-RS. Atua nas áreas de Psicologia Social, da Educação e do Trabalho. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho e Conhecimento na Educação Superior TRACES PPGE UFSC e do Observatório da Vida Estudantil da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó. Professora Doutora do Mestrado em Educação PPGE da Universidade do Planalto Catarinense UNIPLAC. Fundadora do Instituto do Ser – Orientação Profissional e de Carreira (1992), onde atua como professora e coordenadora do Curso na Formação em Orientação Profissional – A facilitação da escolha, e como Orientadora Profissional e de Carreira. Presidente fundadora da Associação Brasileira de Orientação Profissional ABOP. Organizadora e coautora de livros e autora de artigos científicos e trabalhos apresentados e publicados em congressos nacionais e internacionais. Desenvolve Consultoria em Orientação Profissional para escolas e programas de orientação para a aposentadoria em instituições públicas e privadas. Desenvolve seu trabalho com destaque para os seguintes temas: Juventude, Orientação Profissional, de Carreira e para a Aposentadoria, Projeto de Vida e Profissional, Educação e Trabalho.

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