imagem-dialogando-dulce-dez-2016-2

 

 

 

 

Difícil escrever neste momento sobre as escolhas profissionais e de carreira quando vemos tantos jovens que escolheram ser jogadores de futebol e por esta carreira morreram, sem poder escolher, no acidente da Chapecoense, em Medellín.  Como é difícil ver jovens felizes em suas vidas profissionais serem abatidos de forma tão trágica e sem chance de fazer nada para que este momento nunca tivesse acontecido.

Gostaria de falar (Dulce Helena) de como acontecem as escolhas de carreira em um país muito importante para mim, por ser a origem de meu avô materno, Antônio Penna, que na sua juventude trocou sua terra natal, no sul da Itália, para fazer sua vida profissional e familiar no sul do Brasil. Ele também não teve escolha ao lutar na I Guerra Mundial por seu país e, somente após terminada a guerra, pôde escolher imigrar para o Brasil, onde permaneceu até morrer, sem nunca ter retornado à sua terra natal.

Na Itália, a educação é pública e obrigatória, ou seja, os jovens precisam estudar por 10 anos ou pelo menos até os 16 anos de idade. A escola é divida em ensino fundamental (scuola elementare) – dos 6 aos 10 anos; ensino médio (escola secondaria di primo grado o inferiore) – dos 11 aos 14 anos; ensino médio superior (scuola secondaria di secondo grado o superiore) – dos 15 aos 18 anos. Com essa configuração, os jovens, cumprindo o ensino obrigatório, podem frequentar pelo menos 2 anos do ensino superior e obter uma qualificação. Ao final do ensino médio e superior devem fazer uma avaliação nacional e somente superando-a obtém o título em questão. Uma grande diferença, em relação ao Brasil, é que ao final do ciclo médio inferior, ou seja, com 14 anos de idade, os jovens precisam escolher o instituto no qual completarão a sua formação, elegendo assim um “endereço” formativo. As opções são muitas e visam preparar o jovem tanto para o mercado de trabalho quanto para uma carreira acadêmica. A escolha é feita, em primeiro lugar, entre o Liceu, o Instituto Técnico ou Instituto Profissional e, dentro de cada categoria, as opções são muitas. Em geral quem escolhe o Liceu irá continuar a carreira acadêmica em uma universidade e quem escolhe os outros dois irá diretamente para o mercado de trabalho, ainda que esta não seja uma regra. De qualquer forma a primeira grande escolha é feita aos 14 anos de idade, quando para nós, no Brasil, ela se dá a partir de dois anos mais tarde, no caso de quem ingressa no ensino superior.

Outra questão importante observada, antes de falarmos no trabalho desenvolvido por nós na Itália, é o fato de que tudo o que envolve instrução e educação é política pública, ou seja, pensado e oferecido pelo Estado. Cada prefeitura tem autonomia para criar as suas próprias políticas públicas e com certeza existem diferenças importantes entre as diversas regiões. O trabalho por nós desenvolvido na Cooperativa Hermete ocorreu em uma específica região, a da Província de Verona, comumente chamada de Valpolicella. As prefeituras administram serviços de contra-turno, apoio psicopedagógico individual, grupos de estudos para alunos com dificuldades escolares, entre tantas outras abordagens. Esses serviços não podem, por lei, serem oferecidos diretamente pela Prefeitura, mas são realizados, por meio de licitação e a Cooperativa Hermete, com a qual trabalhei, é afidatária de alguns desses serviços. Os profissionais que ali trabalham são na sua maioria educadores (existe uma formação acadêmica na Itália que se chama Ciência da Educação – Scienza dell’educazione – que forma esses profissionais) e dividem o seu tempo entre os vários serviços.

Nos dois encontros que coordenamos pudemos trabalhar com a equipe sobre suas trajetórias-profissionais. Trabalhamos pensando a escolha e a trajetória profissional dos trabalhadores e fornecendo instrumentos para que eles possam enriquecer o seu trabalho diretamente com os jovens com os quais atuam.

Neste contexto, o que mais chamou a atenção é que na Itália existe uma valorização genuína do trabalho em si, isto é, o jovem sente-se motivado e busca trabalhar desde cedo, a formação acadêmica não é o mais importante, não é o valor maior que o jovem busca atingir.  A União Europeia tem por objetivo alcançar uma média de 40% dos jovens com formação universitária até 2020 e a Itália ainda está longe de alcançar este índice. As ocupações desempenhadas pelos jovens são, por exemplo, atividades desenvolvidas durante as férias escolares, por incentivo dos pais que buscam responsabilizá-los por suas próprias vidas, seja economicamente, seja na gestão do tempo. Quando terminam o ensino médio superior, mesmo os que escolhem fazer universidade, na maioria dos casos trabalham durante o período de formação. Buscam, com isso, sua autonomia financeira desde cedo para poder gerir a própria vida. Todas as atividades laborais têm uma remuneração equivalente, isto é, toda atividade ocupacional é valorizada, remunerando com valores suficientes para que o jovem possa arriscar-se a viver sozinho ou com amigos e sentir-se adulto para gerir sua própria existência. A maioria dos jovens, por exemplo, trabalha como garçom/garçonete nos finais de semana e em um mesmo grupo de amigos é normal encontrar um advogado que é amigo de um pedreiro, ou um médico que frequenta a casa de um encanador.

Na já referida Província de Verona tivemos a oportunidade, juntamente com a psicóloga Daniela Mondardo e a filósofa e conselheira de carreira Francesca Benetti, de ministrar uma palestra sobre Orientação e Escolha Profissional, em duas escolas de ensino médio superior.       Na primeira conversamos com os alunos do último ano de um Instituto Tecnológico que, ao fim do ciclo, muito provavelmente irão diretamente buscar o ingresso no mercado de trabalho na área de sua escolha. Na segunda escola falamos com estudantes do último ano de Liceu, que provavelmente irão escolher uma carreira acadêmica. Em ambos os casos enfatizamos os três grandes pilares para uma boa escolha profissional: o autoconhecimento, a influência dos pais e da sociedade nessa escolha, e a informação profissional. Foram encontros breves onde pudemos observar que pouco se fala sobre orientação e escolha nesse contexto. Não se conhece muito a figura do orientador profissional e nas escolas o trabalho de orientação depende muito da sensibilidade dos professores. Um dos instrumentos de que dispõe o jovem é uma feira anual de profissões – JOB ORIENTA – onde as universidades, os institutos de formação e outros órgãos do setor expõem as opções, como um mercado a céu aberto, o que muitas vezes pode proporcionar uma desorganização de ideias sobre as profissões, uma vez que não é um trabalho orientado in loco. O mercado de trabalho é amplo, as carreiras são valorizadas em igual proporção e os pais são os primeiros a incentivar os filhos a escolherem o que preferem fazer (desde cedo, lembram?).  Mas cabe lembrar que para conhecer os próprios sonhos é necessário um período de reflexão, é importante olhar para dentro de si mesmos e conhecer os próprios desejos e, igualmente, é importante olhar pra fora para entender como se faz possível realizá-los. A cada momento podemos e devemos fazer nossas escolhas na busca dessa realização profissional, pois o amanhã ninguém conhece e, se esperarmos para amanhã, corremos o risco de não realizarmos nossos sonhos, esses que podem virar destroços, como aconteceu, infelizmente e por tão trágico acidente, com nossos jogadores a delegação da Chapecoense.

 

 

DANIELA MONDARDO – psicóloga e educadora – Cooperativa Hermete – Valpolicella – Itália

DULCE HELENA PENNA SOARES é psicóloga e professora no Curso de Formação em Orientação Profissional e de Carreira do INSTITUTO DO SER – Orientação Profissional e de Carreira. Realizou pós-doutorado, pesquisando sobre Aposentadoria e Tempo Livre, na UFRGS; doutorado em Psicologia Clínica na Universidade Louis Pasteur Strasbourg – França. É professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina. Criou e coordenou por 25 anos o Laboratório de Informação e Orientação Profissional www.liop.ufsc.br. É sócia e professora do INSTITUTO DO SER – Orientação Profissional e de Carreira. Criou e coordenou de 2006 a 2012 os Projetos: APOSENT-AÇÃO Aposentadoria para Ação e o PROFIN – Programa de Orientação Financeira do LIOP/UFSC. Atua como Consultora em Programas de Orientação para Aposentadoria e Orientação Financeira em diversas organizações publica e privadas.

novembro 2017
S T Q Q S S D
« jul    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
Page generated in 0,434 seconds. Stats plugin by www.blog.ca